Rua

Rua

Precisava ir à rua e fui. Os tempos se confundem nesse caos fora de tempo. Fui procurar o que não sabia se existia mais, nem o que era. Estava escuro, mas a lua era teimosa. Discutia com os postes. As portas das casas todas conectadas por ninguém. Não havia mensagens, apenas o silênco das altas TVs, alguns risos… Lágrimas. Os bichos da rua estavam quietos, não os via, não os ouvia. Eu caminhava pelas frestas de realiade. Andei pelo bloco da minha casa, fui, voltei, olhei para o celular, aquela velha tecnologia com antivírus e nós, não. Não havia motivo para correr, para nada, apenas a vontade de não estar onde estou, nesse tempo vivendo com monstros, conosco. É estranho até dizer que tudo está estranho. Eu caminhava, parava, queria sentar na calçada. Sentar nas calçadas, hábito antigo roubado… Tenho medo de sentar em qualquer calçada, poluída por vírus, violência, por descrença. Eu caminhava. Tinha vindo à rua procurar algo, não achei nada. Ainda não… Não parava, apesar de querer, não posso parar. As horas não param, não pararam e nem vão. Eu caminho, não tenho horas e não quero olhar o telefone, não mais. Está tarde, mais tarde do que há pouco. A exatidão não importa mais, para as horas, para as mortes, para as perdas. Paro, no meio da rua, literalmente. Respiro, ergo os braços, olho para cima. As estrelas não mudaram, está tarde. Tarde demais… desisto, sento na calçada. Ela está poluída de ausência, ausências. Não há ninguém na rua, choro por dentro. Lembro de tudo até agora, até onde posso, até onde aguento lembrar. Lembro de toda dor alheia que não pude sentir, lembro do medo de ser parte dessa dor. Até agora não, muito em breve, será tarde demais? A noite parece mais escura ou a visão das coisas não é mais clara, é outra, é rara. Não sei. Levanto, olho, não achei nada. Respiro fundo. Tenho que ir pra casa. Criminosos são presos para que a sociedade seja livre. Hoje somos presos por vontade própria, ou propriamente sumimos. Devaneio, meu amigo mental. O vírus decretou o toque de recolher. Até quando, até como – até aguentar! Volto para casa, busco a chave no bolso rápido com medo de assalto. Novo devaneio. Um cachorro surge do nada, sem latidos. Peregrinando, para, olha para mim. Minha única companhia dessa caminhada noturna. Olha e não diz nada, não pode, só olha. Tudo que posso é devolver o olhar. Penso que ele me pergunta onde está todo mundo e se eu já vou dormir. Partindo disso, parte o cachorro e eu parto de volta para dentro. Lavo as mãos incessantemente. Uma lágrima cai. Não achei nada. Apenas um cachorro me achou. Não sei quem está preso ou perdido, eu nos meus muros ou ele na estrada. Não sei quem está sozinho, ele na rua, ou eu em casa.

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